Um momento de ti
pode a minha pele saber,
no tremer de cada sorriso,
a longitude de um alcançar - ao lado de lá da ponte erguida -
nas palavras ditas em segredo,
os silêncios que trazemos nas mãos.
abres o mundo que carregas nos teus olhos
e dizes das palavras a ausência do tocar,
o estender do gesto
ao retorno das esperas desenhadas
na estória de mim.
e do amor
que pintamos com as nossas mãos,
nasceu a flor
de me saber inteira
nos labirintos da tua pele.
Closer
não é a tua voz que murmura o nome escrito no suor da pele,
nem tão pouco é o abraço a que recorres quando já não há gesto
que salve o render da ternura,
sê-lo-ia (n)a imensidão do Amor
- palavra que anuncia a Vida -,
mas, ainda assim, buscaria o (des)encontro previsto
como quem realiza um filme,
fotografa...
bater do coração que bate incansavelmente,
o som perfeito de ter apre(e)ndido.
são as procuras lavradas no momento em que (és) tu,
ao lançar os olhos em redor do fascínio
(feitiço, sussurro eu...)
com que (des)prendes os lençóis de uma cama desfeita
e quase te atreves a dizer-lhe:
és tu.
Miragem
muita foi a água que dos céus caiu
até que um dia houve
que trouxe palavras de ti.
no entanto, não leio nas rugas da pele
mais do que um sorriso...
soubesses tu dos mundos que vesti
e perguntar-me-ia
o porquê de um sinal,
oásis no deserto que me fiz...
Broken
é quando o chão encontra o sorriso
e o voo desiste das asas
porque já não é no olhar que acredita.
sente nas mãos,
outrora plenas de gestos,
a textura enrugada da cicatriz,
a dor que fechada ficou.
e o corpo permanece no grito da inocência perdida.
My Immortal
soa-me a Vida a música de um piano que toca interrumptamente
no limiar da cegueira de uma palavra nascida a cada instante
quando o sol se beira dos meus lábios
segredando-me os dias seguintes nas linhas das minhas mãos.
é neste momento que compreendo
já não é a teimosia que move os meus passos
ou os caminhos que se desbravam ao toque de um olhar.
(ficaram somente as imagens pintadas no relâmpago de um voo...
rasante, por se crer liberto)
e é agora que abraço
as vozes que me povoam o roçar das peles,
a serenidade dos rostos que (re)conheço nas águas dos riachos
serpenteando a meu lado
e me demonstram as raízes que me embalam o sorriso,
gosto(-vos) muito.
Diz-me
nem sempre as palavras sucedem neste leito do rio
as margens albergam o respirar da saudade
e eu (pequena borboleta que me soa a imagem...)
trago no roçar das asas as crenças do mundo,
mesmo que não diga nem escreva
há um sussurro que até aos instantes me leva
no leve querer de uma chama que arde como brisa.
e então surges tu
e as minhas mãos já não se vêem vazias,
ocorrem-me pequenos fios de permanência
as memórias transportam as paredes inteiras de palavras
no tecer do desejo que trazes nos olhos
é quando me embriago de ti
dispo-me da minha pele e já só fica o mel da tua boca,
incandescente a cor rubra do teu beijo
incenso o tocar dos dedos
perfume inebriante o deitar dos corpos
e eu já só me sei ternura...
e nasce a vontade de rir.
sorrio.
muito.
hoje,
beirei-me das letras e não lhes (re)conheci o rosto que tantas vezes
percorro com as pontas dos dedos,
e, com elas, nasceram linhas jamais traçadas de um imaginário que não sei
situar no mapa (des)ordenado dos eternos sentires...
foi um puzzle (in)acabado o que me surgiu na berma dos lábios,
que é onde as palavras se encostam no medo dos dizeres
para depois se perderem nos silêncios dos trigais,
carregando as planícies entre aquilo que fui e aquilo que anseio ser...
morri-me lá.
mas aqui,
teimo no (re)erguer das asas, levantando a face à luz que tristemente se faz ténue,
e canto as vozes uníssonas com um
"tem de haver algo mais"...
(19.03.2003)
O Início
trouxesse eu a calma na brandura do sorriso,
que tantas vezes esboço ao roçar os sonhos
tendidos com o fermento de algo que se quer liberto
ousasse o riso e ainda assim tentaria a compreensão do mundo,
mesmo não sabendo da distinção entre as linhas de um não,
ou quando um sim se aflora na imagem
mas sei que naquele instante bastaria um só gesto
e o aceno movediço permaneceria na frente dos meus olhos...
no entanto,
o sol fala(-me) sempre mais alto...
anseei fronteiras no mapa dos sentidos
e os sentires ressalvaram da dor o perfume intacto de novas peles,
ocasos nascidos nas palmas das mãos
que largaram os anéis já tão fartos de o serem
novas raízes se estenderam às bandeiras já erguidas
e das árvores aprendi a espera do tempo,
voos à margem da inspiração oculta nos sabores lançados às terras
calor que povoa o abraço
e ninho que permite o repouso.
sei...
antevejo vento (que seria eu sem o seu sussurro...)
e leio novos acenos na janela,
porta aberta ao arrepio de um beijo
e a força do entrelaçar dos dedos de quem bem me quer
... retornei a casa.
pudesse eu vestir-te de uma cor
já não seria o azul,
mas sim o branco, imaculado
de uma claridade por descobrir.
E eu pétala, fechada
numa concha,
lançada ao mar...
ausente.
A Vida
ergo a longitude exacta na latitude de algo que não questiono
as palavras que trago no colar que me nasce nas mãos,
ténue o fio que me abraça no beijo tantas vezes sonhado,
tantas vezes escondido,
e no entanto sempre permanecido.
são teares onde os dedos tecem sentidos que (me) despertam
(n)os portos que trago nos olhos,
porque me sei vento,
pequena semente que não quer terra...
pego então na flor, que nasce no chão eternamente marcado e desfolho as
pétalas,
uma a uma,
e crescem-me as asas da borboleta,
que me embalam no emaranhado dos voos,
e são proibidos os beijos que entrevejo na boca que não revela
o que a pele escreve...
no entanto, já só te penso ao lusco-fusco do dia,
que é quando a saudade vem nos seus sussurrados passos e me murmura
as letras que compõem o teu nome,
desarrumando os lugares nas sombras dos gestos.
A vida tem os braços grandes...
Desvendem-me
Porque os tempos que nascem na textura das mãos
trazem cheiros desconhecidos de um livro não lido,
e são simuladas as palavras
aquelas que se escrevem sobre mim.
Porque me sinto voraz no alcance dos dias,
desejosa de alimentos que se renovam
no tender da noite
de sombras desenhadas em sonhos
ocultando verdades
que não se dizem, mas sei.
Porque os véus se estendem aos mares do sol
que é bandeira minha,
orgulhosamente
ergo sorrisos de paz
e faço pinturas numa pele não revelada,
fotografia a preto e branco,
personagem inventada que não mostra
as cores que vestem
o eu que transporto na alma.
No entanto, jamais escreverei palavras
de mim.
Desvendem-me...
...se assim for minha vontade.
Faces de Eva
Fêmea,
almas menstruadas que em céus abertos
se movem,
desvendando, mudas de palavras,
ciclos despindo
em sentires renovados;
vestimos sensualidades
que nos torneiam os corpos,
ansiando lutas envoltas em panos
que aos cabelos amarramos.
E descalças caminhamos.
Cio,
mistérios encerramos nas mãos
que embalam feitiços de dança-fogueira,
em Vidas permanecidas em nós.
Fomes de desejos
que pelas raças nos transporta
em todos os Tempos vividas,
aprendendo a soltar as presas
que um dia quisemos nossas.
Amante,
erguemos instintos
com os quais convocamos o acto.
Em trocas de carícias de corpos desnudados
provamos da textura das peles tocadas
e no roçar de bocas sedentas
bebemos do prazer, de partilha e entrega totais,
guerra única
em que não saíremos vencedoras
porque jamais seremos vencidas.
Progenitora,
no ventre carregamos ninhos construídos
em laços de ternura oferecida
às crias que acolhemos
como nossas;
nos seios o alimento
que se torna esperança de um nascer
que queremos liberto.
E renascemos todos os dias
antes do sol primeiro incendiar os céus,
por isso, trazemos o orgulho
de Mulher
em nossos olhares tatuado.
Sonhadora
Todas as manhãs (re)invento o mundo
pela urgência de criar sentimentos
plenos de gestos, vazios de sons.
Passíveis de serem lidos
no branco da alma.
Todas as manhãs me torno mais leve,
liberto correntes,
solto o Tempo
em torno da Vida,
ancoro ventos
às palmas das minhas mãos,
e dos frutos, que na minha boca plantei,
não quero senão
as sementes;
tornar-me raíz
em outras terras.
Cala a minha boca com a tua
E ergo o olhar
perante a ausência do gesto
preenchendo o lugar vago
com a saudade latente da tua voz.
Sons que trazem cheiros desconhecidos
de algo que se quer saber,
transbordar na loucura de sermos nós
nas palavras que da vontade nascem tão dentro.
E passeio clandestina
na música para os ouvidos meus,
essa melodia que, por vezes,
não sai da tua boca,
e que eu calo,
mas sei a cor.
Palavras a ferro e fogo cravadas,
e na emergência dos sentidos
descobrir-te a pele
para lá do sussurrar da voz que é a tua.
E é frágil
e é frágil o vidro dos dias com que se corta os silêncios opacos das nuvens
que escondidas passeiam nos olhos e atravessam as pontes construídas em
redor
de ruínas que se erguem no espanto do ser,
e as pétalas com que a pele toca o momento não murmuram as palavras,
vencidas e gastas no sangue das noites,
e são precisos os riscos
com que a voz escreve os sussurros de vento que em água se tornam,
e das asas desprendem-se voos, que solitários, seguem preenchidos de
lugares,
(re)conhecendo texturas
e os cheiros das casas que nos cabelos transportam mãos,
e, no entanto,
serão sempre plenos os instantes dos gestos pelo desejo desenhados.
Peregrinos
Cruzam-se letras despidas de gentes,
atravessamos passados. Fomos
raças de sentires oprimidos ,
e livres ao sol, de corpos nús.
Continuamos batalhas.
Persistimos em reinos de condão,
inventámos gritos de guerras,
que pintamos pedras lançadas
em terras que trouxemos nas mãos.
Ouvimos o vento.
Não seguimos mapas. Dos
caminhos apenas quisemos o
desconhecido. Soltamos o norte
da rosa nas linhas do Tempo, e
do silêncio fizemos a nossa palavra.
Abrigo de tempestades.
E, porque filhas da noite nos tornámos,
entoamos melodias junto aos cais.
Barcos que partem já tarde. E os
braços fechados buscaram
luz no livro das memórias que,
aberto, resistirá aos tempos do sempre.
Erguemos o olhar.
Separadas desbravamos desertos
imensos. Dormimos sob as estrelas na
incessante quimera de sonhos despertos.
Oferecemos corpos. Mas preservámos a alma.
Outrora terras fomos
em lutas de uma só mão,
Hoje Irmãs,
de dedos entrelaçados,
que a Vida juntou no sangue.
Tecedora
teço histórias à boca da lua
sem saber se as palavras que me saiem das mãos
transmitem algum sentir às linhas que se espraiam
aos mares ausentes.
na serenidade das letras oculto o cansaço do corpo,
o rasgo que na terra a semente fez - frágil flor -,
pétalas textuadas em fios de luares
que me concebem no desenho de mulher
que trago na saudade dos teus olhos,
espera minha que já não vem.
e é então que tacteio
os caminhos nos contornos dos lábios da lua,
beijo profundo em que me perco,
mas onde todos os dias me recomeço...